Thiago de Aragao

Archive for 2 de julho de 2007|Daily archive page

A Semana na América Latina

In América Latina, Artigos on julho 2, 2007 at 1:47 pm

O principal assunto da semana que se inicia na América Latina, não é voltado necessariamente para a política. A Copa América de futebol, que reúne todos os países sul-americanos mais Estados Unidos e México se iniciou nesta semana na Venezuela. No entanto, apesar de ser um evento esportivo e, teoricamente, apartidário, a Copa América organizada por Hugo Chávez tem um forte componente político.Dentro de um estilo infinitamente menor, a Copa América na Venezuela muito lembra as Olimpíadas de Berlim em 1936, onde o então fuhrer alemão, Adolf Hitler mostrava ao mundo a capacidade de organização dos alemães. Sem querer comparar um líder com o outro, Chávez busca na Copa América mostrar a visitantes de todo o continente uma faceta amigável de sua revolução socialista.

O momento em que o torneio se inicia, não poderia ser melhor. Atordoado com as freqüentes manifestações estudantis, que entre outras coisas, ainda reclamam o fechamento da RCTV, a falta de mantimentos de primeira necessidade nos supermercados e a crescente onda de violência nas principais cidades do país, Chávez vê no evento a chance ideal de redirecionar o foco do país e “abafar” suas recentes crises. Há o risco de acertar um tiro no próprio pé. Os grandes gastos e a grande falta de organização do evento podem alertar não só os venezuelanos dos problemas estruturais da revolução, mas também os inúmeros visitantes e jornalistas que cobrem o evento no país.

Apesar de atrair os principais holofotes do mundo, a Copa América não é o principal acontecimento no continente. Para os peruanos, por exemplo, a Tratado de Livre Comércio (TLC) negociado com os EUA entra em uma fase crítica. Após as inúmeras recomendações e alterações propostas pelo Congresso norte-americano, de maioria democrata, os peruanos conseguiram ajustar os pontos necessários (principalmente no que refere a direitos trabalhistas e propriedade intelectual) e o TLC pode ser anunciado a qualquer momento da próxima semana. Este acontecimento representará uma grande vitória para o Presidente Alan Garcia, que temia não conseguir aprovar o Tratado quando os democratas venceram a maioria das cadeiras no Congresso dos Estados Unidos. Mesmo com o sucesso do serviço diplomático peruano em Washington, o Tratados com os EUA não é unanimidade no país. O principal rival político de Alan Garcia, o ultranacionalista Ollanta Humala, afirma frequentemente que este Tratado “escravizará ainda mais o povo do Peru nas mãos dos americanos”. Porém, essas palavras vêm se demonstrando vagas, já que uma grande parcela da população aprova o acordo.

Na vizinha Bolívia, a situação é bem diferente da que ocorre no Peru. O Presidente Evo Morales vem sofrendo com a possibilidade de não honrar seus compromissos de fornecimento de gás para Brasil e Argentina. No caso argentino, a situação é ainda mais grave, pois o país vive um grande racionamento de gás natural, e a situação para as indústrias que dependem do gás pode piorar caso a Bolívia fracasse no fornecimento. Na tentativa desesperada de evitar que o pior ocorra, Morales conclama as empresas estrangeiras situadas no país a aumentar o fluxo de investimento. No entanto, como a desconfiança é tanta, dificilmente uma empresa estrangeira aportará investimentos da ordem desejada por Morales. Ao seu melhor estilo, o líder boliviano ao invés de negociar a entrada de capital, ameaça essas empresas de expulsão caso elas não invistam em seu país. Algumas deverão ceder à ameaça de Morales, outras podem sair do país a qualquer momento, prejudicando ainda mais a situação econômica no país.

No México, o momento é voltado para o imenso debate em torno da reforma fiscal que o Presidente Felipe Calderón pretende implementar. O ponto polêmico é justamente a abertura para que empresas estrangeiras do setor de petróleo possam investir no país. No país, a estatal de petróleo, Pemex, é única na exploração, processamento e distribuição de combustível no país. Calderón identificou que este monopólio representará uma grande perda para a economia do país, caso não haja uma abertura para outras empresas entrarem no país. Alguns estudos elaborados pelo governo apontam que a Pemex não possui a estrutura técnica necessária para aumentar sua capacidade de exploração e atender o mercado doméstico e o dos EUA, seu principal cliente. A grande voz de oposição parte do Partido da Revolução Democrática (PRD), do ex-candidato presidencial Andrés Manuel López Obrador. Este acusa Calderón de querer se desfazer de um grande bem público mexicano (Pemex). No entanto, Calderón parece muito determinado a realizar a reforma fiscal e abrir o mercado para empresas estrangeiras. Essa atitude vem sendo muito elogiada na Europa e nos EUA, onde Calderón goza de um bom prestígio entre os líderes.

Por fim, a reunião de Cúpula do MERCOSUL se iniciará na próxima sexta-feira. O evento é marcado por algumas contradições e temas polêmicos. Certamente o principal assunto a ser debatido será à entrada da Venezuela no bloco. Uruguai e Paraguai são contra e acreditam que o bloco está “pulando etapas” para atingir rapidamente o ponto de União Aduaneira. A resposta venezuelana sobre as críticas referentes à sua entrada foi simplesmente de ignorar o evento. Hugo Chávez realizará no mesmo período visitas à Rússia, Bielorússia e Irã, com intuito de fortalecer suas relações diplomáticas e militares com esses países. Muitas especulações serão levantadas ao longo da próxima semana sobre a reunião. Acredita-se que será um “ataque contra defesa” onde o Brasil e Argentina tentarão justificar e convencer os demais membros sobre a entrada da Venezuela como sócio pleno. Se for uma reunião típica do “velho MERCOSUL”, podemos esperar uma grande agenda de indefinições. Resta saber se este “velho Mercosul” é melhor assim, ou o “novo Mercosul” como deseja Chávez será melhor.

Anúncios