Andar em uma montanha russa, sentir medo e saber que o fim será seguro é bastante excitante e gera uma adrenalina saudável. Andar em outra montanha russa, onde os trilhos estão soltos e a estrutura precária, e mesmo assim se salvar é uma lição inestimável para o futuro. Na Argentina, essa percepção não é compartilhada pelo governo local. Após os traumáticos eventos de 2001, quando o país quebrou financeiramente arrastando milhares de pessoas para a pobreza, uma situação parecida está prestes a se repetir.
A recuperação econômica demonstrada no governo de Nestor Kirchner mascarou outros problemas estruturais com alto potencial de destruição. A falta de modernização da matriz energética, bem como a pífia estratégia de mascarar os índices de inflação, estão trazendo problemas imediatos que estão afetando a população.
Cristina Kirchner assumiu a Presidência da República com a missão de continuar o crescimento econômico iniciado pelo marido e melhorar o aspecto diplomático do país, que não era o forte de Nestor. Bem mais carismática, Cristina aparentava ser o eixo que faltava para que a confiança expressa ao povo domesticamente se expandisse para países vizinhos e órgãos internacionais que acompanham o andamento da economia e da política argentina.
No entanto, o que se viu foi uma história completamente diferente e ao mesmo tempo incrivelmente previsível. O problema da matriz energética argentina não é de hoje. Com a crise em 2001, uma modernização do setor ficou temporariamente suspensa. Com a recuperação econômica privilegiando excessivamente o mercado doméstico (impossibilitando produtores de exportar certos produtos, como carne bovina e suína) o consumo doméstico explodiu. Uma parcela significativa da população recuperou o poder de compra e a baixa inflação, segurada forçadamente pelo governo possibilitava os argentinos de comprarem e se endividarem. Com tudo isso, o consumo energético aumentou na mesma correlação que o poder econômico da população aumentou. No entanto, o limite de produção energética era baixo, levando o país a atingir o pico de consumo. Aliado a isso, a Argentina passou a depender integralmente da Bolívia, país pouco confiável devido à grande instabilidade interna.
Apagões generalizados ainda não ocorreram. Porém, apagões programados por certas indústrias vem acontecendo sistematicamente. Cristina assumiu a presidência ciente desse problema e nada faz para solucionar. Suas propostas de resolução do problema apresentadas até o momento são simplistas demais frente à complexidade do problema. Pedir ao Brasil para abrir mão de percentuais importados da Bolívia é um pedido desesperador e não uma postura de Estado para resolver um problema dessa gravidade.
O que ocorreu, é que pouco antes da crise energética detonar (o que pode acontecer a qualquer momento), outra crise política surgiu. A crise com os ruralistas em torno do controle de preço exercido pelo governo bem como o limite de exportações que os ruralistas possuem, foi importante para mostrar outra limitação do governo. A capacidade de negociação de Cristina vem sendo fraca. Suas soluções não são viáveis pois ela se sustenta em um alicerce artificial: os índices de inflação anunciados pelo governo. Para os produtores, produzir e vender para o mercado interno está dando prejuízo pois a inflação real está na casa dos 20%. Cristina não dá o braço a torcer nas negociações e recusa-se a reconhecer que a inflação de 7% anunciada pelo seu governo é irreal.
Das duas uma: ou Cristina vencerá os ruralistas na base do cansaço, e estes perceberão que diminuir a produção e continuar vendendo para o mercado interno é a única alternativa, ou o governo sofrerá uma grave crise de confiança com a revisão das taxas de inflação, apontando os valores reais.
Se o aspecto da grave crise de 2001 era essencialmente econômico, esse de 2008 é político. O poder de destruição da atual situação é alto. Deve-se levar em consideração a baixa capacidade administrativa de Cristina e a mudança de postura da população de baixa renda (sua base eleitoral). Com o povo se voltando contra Cristina, o andamento de sua administração se tornará insustentável.