Álvaro Dias é professor e está em seu 3º mandato. É um político experiente, pois já exerceu vários cargos eletivos: vereador em Londrina, deputado estadual, deputado federal duas vezes, e senador, antes de ter sido eleito governador do Paraná, em 1986. Opositor determinado do governo Lula, também foi vice-líder do PSDB e líder da Minoria. Atualmente, é o segundo vice-presidente do Senado.
ARKO AMÉRICA LATINA: Senador, o candidato da Aliança Patriótica para a Mudança à presidência do Paraguai, Fernando Lugo, tem dito que o seu país precisa recuperar a soberania de Itaipu. O senhor acha que isso pode ser motivo de preocupação para o Brasil?
Álvaro Dias: Acompanho o desenrolar da campanha eleitoral no Paraguai com peculiar interesse e atenção. Somado ao fato de envolver questões de nosso entorno regional (vetor estratégico), como ex-governador e parlamentar do Paraná, vivenciei os assuntos relacionados à Tríplice Fronteira de forma rotineira. A plataforma dos candidatos ao ‘Palácio de Lopez’ inclui, em alguma medida, a releitura das relações bilaterais Brasil/Paraguai. Nesse contexto, é quase que inexorável que Itaipu não seja alçada ao cerne do debate presidencial. No que toca especificamente ao candidato Fernando Lugo, sua bandeira e mote principais desfraldados nas arborizadas ruas de Assunção, se traduzem no resgate da soberania energética. Sua retórica procura galvanizar o sentimento de setores nacionalistas que defendem a tese da revisão do Tratado de Itaipu em termos radicais. Não pode ser afastada a possibilidade de rompimento de obrigações contratuais, caso Lugo seja sufragado pelas urnas, em abril próximo. Acredito que o Itamaraty já estude essa questão e elabore uma estratégia a ser oferecida ao Presidente da República.
AAL 2: O candidato a presidente do Paraguai pela União Nacional dos Cidadãos Éticos, Lino Oviedo, é o preferido dos políticos e empresários brasileiros. Quais as propostas de Oviedo que mais “seduzem” seus apoiadores?
AD: O General Lino Oviedo retornou à política após um longo e tortuoso itinerário, passando do exílio à prisão. O cárcere é lugar de exaustiva reflexão, recordo-me do ex-governador Miguel Arrais tecendo comentários sobre o seu período de reclusão e exílio na Argélia. Acredito que o General Lino percorreu uma verdadeira via crucis interior e tenha incorporado lições e aprendizados importantes que se refletem hoje nos seus posicionamentos. A sua proposta, ou melhor, a sua tônica é a da negociação pela via diplomática. Não me surpreende que a postura de Oviedo desperte a simpatia de gregos e troianos.
AAL 3: O senhor acredita que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tenha maior influência no Paraguai num eventual governo Fernando Lugo?
AD: Acho temerário vaticinar sobre eventuais posturas do coronel Chávez. O mandatário venezuelano é um homem imprevisível. Contudo, me sinto bastante a vontade para afirmar que numa administração Fernando Lugo, o senhor Chávez seria persona grata.
AAL 4: Qual o seu entendimento sobre o “Projeto do Sacoleiro” (PL 2105/07), que institui o RTU na importação, por via terrestre, de mercadorias procedentes do Paraguai? Qual a postura que o senhor espera do Brasil em relação ao combate à pirataria?
AD: Primeiramente, é preciso recapitular algumas passagens que envolvem essa matéria. O governo Lula colocou na última gaveta a proposta de transformar os sacoleiros em micro-importadores mediante a fixação de alíquota diferenciada. No apagar das luzes do ano de 2006, após marchas e contramarchas da administração petista, levei a proposta ao Senado. O compromisso então assumido pelo governo, qual seja, responder a questão num horizonte temporal de 30 dias venceu e foi postergado até junho do ano passado, quando foi editada a Medida Provisória –MP – 380. Essa MP foi revogada em nome do pragmatismo da gestão Lula: não obstruir a pauta e permitir a aprovação da CPMF. Logo em seguida, surgiu o PL 2105 que institui o Regime de Tributação Unificada (RTU) para a importação de mercadorias do Paraguai, por via terrestre, pelos micro e pequenos empresários participantes do Simples Nacional (Supersimples). O combate à pirataria deve ser prioridade das autoridades governamentais, bem como o Brasil deve ser signatário e apoiador de 1ª hora de todas as iniciativas multilaterais que objetivam combater esse fenômeno que se alastrou pelos quatros cantos.
AAL 5: O próximo governo paraguaio diminuirá o problema da pirataria e do contrabando?
AD: Na plataforma de Oviedo esse é um ponto fulcral. Qualquer homem sério que se proponha a governar a República do Paraguai, sabe que é vital desconstruir essa imagem de ‘pirata sem mar’ que o Paraguai ostenta. Tudo converge para que o combate à pirataria seja intensificado pelas autoridades constituídas daquele país.
AAL 6: A possível derrota do partido Colorado no Paraguai, que está no poder há 60 anos, poderá trazer mudanças bruscas para a política interna e externa desse país?
AD: A derrota da candidata Blanca Ovelar – o fim da hegemonia do Partido Colorado no comando do país – deverá trazer novos ventos. Com Oviedo, uma brisa moderada, mas nem por isso fraca. Com Lugo, a velocidade dos ventos pode ser incerta.
(Equipe Arko América Latina – americalatina@arkoadvice.com.br)